quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Hoje chorei, mas não senti. Sinto que choro de maneira diferente. Não sou eu. Tão poucas lágrimas inundaram os meus olhos. Não pareço eu. Os ventos de outrora levantaram a poeira do chão e toda ela foi atirada para os meus olhos. Feriu-os, entranhou-se, permaneceu. Não sei onde a procurar. Talvez a tenha limpo num dia qualquer em que me lembrei de não gostar de ventos.
Apetece-me estar sozinha. Em casa ou por aí. Rumar para destino incerto. Por dez minutos, uma hora, um dia inteiro. Perdi a noção do tempo. Não controlo o choro. E só o sei porque é agora que as palavras correm e se atropelam querendo ocupar o seu lugar. Uma pausa, o choro abrandou. Mas voltará a qualquer instante, apesar de eu saber que não vou chorar tudo e que já não sou eu nem me reconheço.
Finalmente cessou. Mas culminou numa dor de cabeça que se vai deitar comigo e não me vai deixar dormir. Vou passar a noite toda em claro e acordar com os olhos opados. Posso disfarçar as olheiras,mas ainda não aprendi a disfarçar tristeza dentro do meu olhar.
Estar presa dentro de mim.
Ver as águas do rio correr, preguiçosas.
Invejá-las por serem livres.
Ter versos e palavras, apenas palavras,
Dentro de mim e não a conseguir expulsar

Como quero. Sem ordem, sem regra,
Sem tempo.
Escrever uma aqui e outra ali.
Uma no chão e outra no céu;
Conseguir desenhar letras ao pé do mar
E não deixar que a onda sagaz e sedenta de areia
A tome para si e a aprisione dentro de mim.