Já não me dói a alma como Ontem.
Arde apenas. Lenta e dolorosamente.
Queima. Mas estou imune à dor ou a qualquer sentimento.
Apenas o Desejo permanece. Violento, atiçado, regressado do Passado
E de uma esperança que se perdeu no vazio.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Confusão de Tempos
É Primavera na minha vida.
Sol quente, flores de várias cores que se perdem na densa floresta.
O Beija-flor alegra a manhã, as nuvens sorriem.
Está um pouco de frio.
Dentro da tranquilidade do meu jardim repouso.
O amor preenche-me. A meu lado adormece feliz.
O sorriso desenha-se no seu rosto.
Está um pouco de frio.
Subitamente o Inverno! Brusco, voraz, maravilhoso!
Não me são indiferentes o desejo e a pele que amei.
Jamais os pedaços de neve se misturarão em mim outra vez.
Está muito frio.
Gosto do Inverno.
Sol quente, flores de várias cores que se perdem na densa floresta.
O Beija-flor alegra a manhã, as nuvens sorriem.
Está um pouco de frio.
Dentro da tranquilidade do meu jardim repouso.
O amor preenche-me. A meu lado adormece feliz.
O sorriso desenha-se no seu rosto.
Está um pouco de frio.
Subitamente o Inverno! Brusco, voraz, maravilhoso!
Não me são indiferentes o desejo e a pele que amei.
Jamais os pedaços de neve se misturarão em mim outra vez.
Está muito frio.
Gosto do Inverno.
domingo, 15 de junho de 2008
Chorava eu quando o sol se pôs.
Não hoje porque não houve sol.
Apenas lágrimas e chuva.
Não aquela chuva deliciosa de há tempos.
Sem especificar, sem garantir. Ontem.
Lá atrás no passado.
Na memória, hoje. Bem presente.
A bailarina do meu quadro continua presa,
As cordas do violino desfizeram-se nas minhas mãos,
Enquanto os meus dedos as recordavam.
Basta! Não quero tocar, não quero ver, ouvir, saborear.
Não quero desvendar o mistério escondido em cada olhar.
Não quero pensar porque dói. Apenas.
Quero, afinal,
Esquecer.
(Na confusão dos meus pensamentos,
Avizinham-se novos Tempos...)
Não hoje porque não houve sol.
Apenas lágrimas e chuva.
Não aquela chuva deliciosa de há tempos.
Sem especificar, sem garantir. Ontem.
Lá atrás no passado.
Na memória, hoje. Bem presente.
A bailarina do meu quadro continua presa,
As cordas do violino desfizeram-se nas minhas mãos,
Enquanto os meus dedos as recordavam.
Basta! Não quero tocar, não quero ver, ouvir, saborear.
Não quero desvendar o mistério escondido em cada olhar.
Não quero pensar porque dói. Apenas.
Quero, afinal,
Esquecer.
(Na confusão dos meus pensamentos,
Avizinham-se novos Tempos...)
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Despedida
Olhei tudo ao meu redor. Bastou que o fizesse uma vez para que as imagens ficassem gravadas na minha mente. Para sempre. Sabia que a efemeridade do Tempo em breve me traria esta tristeza que tentei, em vão, desprezar. Sabia que a crueldade dos sentimentos partilhados um dia, naquele dia, iria quebrar a pedra em que, aparentemente, se transformou o meu coração.
O choro teimava em queimar-me os olhos havia dias. Escondida num mundo que já não me pertence, revivo momentos de pura delícia. O relógio, que naquela noite parara enquanto eu dormia atormentada, voltou a correr. Quando reparei, já os ponteiros haviam chegado à meta e o inevitável acontecera...
Levantei-me estranhamente calma como sempre em dias de grande tensão (todos eles durante os últimos tempos...)... Sorri, olhar alegre embora cheio de sombras... E ele chegou. E o constrangimento de sempre, o pavor do olhar, da denúncia do desejo que ainda nos une, o medo de uma hora que se apressava em chegar... De gesto rude, olhar fingido, fugiu de mim como se tivesse medo de me observar. Fugiu, magoou-me uma vez mais... Ainda eu acalentava uma ínfima esperança de que tudo fosse diferente naquele dia. Eu, ao sentir-me mais uma vez ferida, atingi-o cruelmente dando-lhe a ler um olhar gélido e indiferente. Como menti... Ontem, no passado... Hoje já não tenho a sua presença para o poder enganar novamente jurando que não o quero...
Surpreendentemente aproximei-me dele pela última vez. Sentia que jamais poderia sentir o seu cheiro que tantas vezes se confundiu com o meu num misto de proibido, desejo e loucura. E, sentindo os minutos esgotar-se dentro do pequeno grande relógio, ficámos lado a lado em silêncio como se saboreássemos o que nos permitimos perder outrora...
As lágrimas queimavam-me por dentro. Sentia o meu choro atear fogo ao meu coração já incendiado de sofrimento e desejo... Os dois fixando o indefinido... Olhar esfíngico, distante... Os outros desapareceram. Tocou-me ao de leve e fugiu...Observei todos os seus movimentos, reconheci os sinais do corpo que amei sem pedir nada em troca, no ar desenhei os contornos da boca que me prendeu...
E, tal como estava escrito, o relógio finalmente cumpriu o seu destino. A hora aproximava-se... Teria, no máximo, mais dois ou três minutos de felicidade que me pareceram uma eternidade... Aproximou-se de mim, abracei-o suavemente... Quase me beijou, acariciou-me a face como se me quisesse sentir pela última vez, encostando-se docemente ao meu corpo... Segredei-lhe as palavras presas dentro de mim ao ouvido, fechei os olhos e deixei-o partir sem sequer poder confessar o que estupidamente sinto. E voltei a fugir e a esconder o choro para que ninguém percebesse que a mulher que ali se encontrava acabava de perder da forma mais dolorosa quem ama. Sufoquei sentimentos, gestos e palavras, engoli a dor e o orgulho e fiquei sozinha, sem ele eternamente.
Enquanto tentava chegar à saída do edifício, percorri os corredores onde os nossos olhares tantas vezes se cruzaram e confessaram querer-se genuinamente sem regras nem leis. Gravei, recordei e também eu parti jurando nunca mais voltar.
Hoje, aqui sozinha e ainda caída no chão triste que me sustenta, o choro permanece mais violento do que nunca. A culpa, o remorso e a ignorância destroem-me a cada dia que passa. O ciúme atravessa o meu corpo sem dó nem piedade tentando envenená-lo. E tento convencer-me que o Tempo passará depressa demais e que amanhã já não sofrerei... Mas a dor intensa não cessará enquanto sonhos, memórias permanecerem e esta história não for definitivamente resolvida.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Voraz, esfomeado. O Tempo passou. Apenas. Sem eu sequer poder parar os relógios e gritar. Sem eu sequer poder atrasar os ponteiros, deixando-os no Inverno e na chuva ociosa que se fez sentir. Há tempos. Ontem, em sonhos. Hoje, em utopias. Não interessa quando. E nem onde. Para que preciso de tempo e de espaço se o coração esqueceu significados?
Sedento do meu sofrimento, desejando ardentemente queimar-me, incendiar-me, o veloz Tempo passou pela minha pele, pela minha mão macia, pelo meu coração agora revestido de dor, de ciúme e de paixão. Quis também seduzir o meu olhar. A alma não deixou. Pertence-lhe inteiramente. É só dele. Aprisionada por correias reais, luta para poder correr livremente.
A vida correrá depois de amanhã. Não sei quando é amanhã. Interessará o amanhã? O choro chegará apenas durante a noite fria que se avizinha. Depois de amanhã. Depois de fingir que a tristeza não faz parte de mim. Depois de dissimular e de frustrar o prazer que delicia o meu corpo e o dele a cada olhar intenso. Sem me tocar despe-me. Nua, à sua frente, beija-me, toma-me, bebe-me em silêncio. Na ignorância de todos. E finge de novo. Sorri, malicioso.
A palavra que deveria ter proferido, o beijo que lhe devia ter dado ferem-me constantemente. E, ainda presa, o pensamento tortura-me, mata-me a lembrança sempre presente, dolorosa, num misto de mel e fel, deixando-me, porém, a boca amarga. Finalmente consigo sair do cativeiro, mas ele corre atrás de mim. Violento, viril, agarra-me o braço. Magoa-me. Volta a prender-me, a possuir-me sem eu querer, sem eu pedir, sem eu gritar. E deixa-me partir prometendo-me um Tempo novo.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Prisioneira
Têm passado os dias. Todos iguais, todos parecidos, mas todos diferentes. Infelizmente continua o sol. A chuva fugiu, mas as minhas lágrimas tomam o seu lugar, formando um exército feroz que defende veementemente o trono que ocuparam. Quisera eu não sentir, não saber ler olhares, não saber significados de palavras. Conhecê-las brutas e impiedosas e esquecer o conteúdo, esquecer memórias... Ainda não parou de doer. Dói cada vez mais mesmo estando o fim próximo...
Vislumbro, ao longe, um molho de chaves. Olho os meus pulsos feridos, ensanguentados, presos, imóveis. Não me posso mexer, não sei se me é permitido respirar, falar... Só os meus olhos têm liberdade... Chorando, especialmente magoados, gritam, vociferam sem dó nem piedade; já não distinguem o que verdadeiramente sentem do que aquilo que o dolorido coração os leva a sentir. O corpo está cansado de lutar, o pensamento é constante, a agridoce lembrança...
Dias há em que quero arrancar o coração a sangue frio. Talvez uma dor no peito me fizesse esquecer o tormento, a angústia... O carrasco aproxima-se sorrindo maliciosamente. Por momentos acreditei que soltasse as correntes de ferro quente que ferem o meu corpo. Mais uma vez me enganei. Dele não posso esperar mais que dor, que desprezo, que desilusão, que tristeza. O grande momento aproxima-se. Agarrando-me o braço violentamente, arrastando-me pelo chão, atira-me para a fogueira e senta-se em frente ao triste espectáculo contemplando o meu fim.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Já deveriam ter secado minhas lágrimas. Depois do prazer, a dor, as paredes brancas e o silêncio de uma casa que já não me pertence, mas onde continuo a entrar diariamente apenas para me magoar. A máscara pesa. Como pesa... Horas e horas presa ao meu rosto, apertando o meu coração. A corda na garganta está a ficar apertada e a minha voz a desaparecer, baixando lentamente de tom até ser votada ao silêncio e ao esquecimento. E o esquecimento magoa. Sinto mil flechas trespassarem-me o corpo, diária e continuamente. Mas sobrevivo a todas, arrastando-me por aí e tentando esconder o sangue puro que suja os locais por onde passo, sozinha nesta dor que há meses me atormenta. De vez em quando chove e o chão pinta-se de vermelho vivo. Mas volta o sol e a dor. As flechas, aos olhos dos outros invisíveis, são lançadas dos seus próprios olhos, através das suas acções. Dói tanto que tento não sentir; mas é impossível. Fere ainda mais a lembrança: a volúpia da posse, violenta, instintiva, fugaz.
Não quero mais recordar; o coração não o permite, nega-se a fazê-lo, insurge-se, lutando comigo. Jamais vi exército tão feroz, tão beligerante, tão intenso. Rendo-me. As forças esvaem-se, a minha mão não consegue empunhar o sabre ocioso. Contudo, minto. Ainda me resta uma só força, intensa, que exorcizará o veneno que corre dentro de mim e matará meu coração imortal.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Metáforas
Gosto de comboios. Talvez porque sejam grandes e viajem por muitas terras grandes bem como aldeias nos locais mais remotos, pelo menos aqui. Um comboio é uma excelente fonte de inspiração para os poetas errantes que vagabundeiam quando o sol se põe e o manto negro que acaricia meio mundo se enche de pequenos pontinhos luminosos. As linhas, os vagões, as estações, o maquinista, os caminhos que se cruzam! Tantos elementos que, sabiamente conjugados, resultam numa bela metáfora que faz chorar jovenzinhas com tendências sentimentalistas como eu.
Gosto de comboios porque tenho alma de poeta. Também gostaria de me perder na noite escura para procurar coisas feias e realidades obscuras. Basta de adornos, de iluminação, de pessoas cujas caras consigo ver por inteiro. Hoje quero reconhecer partes. Não quero avaliar o todo. Quero poder prestar atenção aos detalhes. Os olhos daquele que ali está junto ao mar sentindo a água arrepiar o seu corpo serão de que cor? Estarão brilhantes? Mortiços? Tristes? E aquela rapariguinha de cabelos escuros cuja difusa sombra apenas distingo? O que a leva a não se voltar para a cidade e perder-se no mar, gritando um nome de três sílabas que não entendi? Chora! Porquê? Desespera! Pobre menina. Tenho de me aproximar. Não posso ficar indiferente a esta dor que parou o Tempo. Aproximo-me dela, tremendo de frio, misturando-se na areia macia. Chora ainda. Diz-me que não gosta de chorar assim, de sentir a lágrima percorrer o seu caminho, de a sentir quente, pesada; não gosta de saber o seu destino, prefere-a bruta, violenta, incendiada, mas fugaz. Acrescenta ainda que não sabe. E pergunto-me eu "mas afinal não sabe o quê?". A muito custo, evasiva e misteriosa, fala-me de uma promessa em silêncio, de um segredo que a atormenta, mas que, nos seus tempos, foi agradável. Não se acalma, chora cada vez mais, devastada por uma dor inigualável, entendo eu. Sofre sozinha e calada, carregando sobre os ombros a certeza de que foi punida sem ter errado. Acender fogueiras e sorrisos não é crime. Guardar segredo é cumplicidade e partilha. Não sei de onde brota este discurso, mas não a conforta. Diz que a cumplicidade está no passado e que hoje lhe restam memórias que a torturam, e que odeia e que sente raiva e nojo e... Interrompo-a. Eu conheço esta história. Ela não sente raiva, nem nojo, nem ódio. Ela ama. Apenas. Sem especificar o jeito, a intensidade. Confusa, só, o pensamento leva-a por veredas de ciúme e posse que a enlouquecem. Já não sei o que dizer mais! Ela não se acalma! Ela chora, grita, contorce-se tanto de dor que dou por mim a pensar se o coração quente não a queimará por dentro.
Agora que me encontro em casa, lembro-me da noite de ontem. Perdi o rasto da rapariga desesperada, devorada por um sofrimento indelével. Também eu, mais calma, recordo os pormenores dos seus olhos: incendiados, tristes, doloridos, ciumentos, apaixonados. E, subitamente, o meu fraco coração desenterra uma história do passado que jamais esqueci. E revejo cada gesto dela como se meu fosse, porque também eu, em tempos, acendi fogueiras e sorrisos que acabaram por adormecer. Decido, agora, pegar no livro escondido na prateleira mais alta da estante, aquele em que guardei uma memória e tentar reconstruir o meu castelo de cartas apesar do vento forte que se aproxima.
O relógio já correu, já parou e voltou a correr.
E, mesmo assim, eu não consigo entender
O sofrimento que me invade sem pudor.
Sinto na pele as vergastadas dolorosas
Como se fosse uma escrava
De um destino que escolhi
Porque segui o prazer.
Estou presa numa fogueira que cresce diariamente,
Que me queima, que me deleita, que me fere
E incendeia. Ah! Poder evadir-me!
Poder respirar sem a culpa e a dor
Percorrendo o meu corpo.
Há capítulos arrancados no meio do livro
Que a tanto custo tento guardar na mais recôndita prateleira.
Talvez um dia, quando o medo se afastar de mim,
Perturbe a outra personagem só para saber
O que, de facto, aconteceu naquela história.
E, mesmo assim, eu não consigo entender
O sofrimento que me invade sem pudor.
Sinto na pele as vergastadas dolorosas
Como se fosse uma escrava
De um destino que escolhi
Porque segui o prazer.
Estou presa numa fogueira que cresce diariamente,
Que me queima, que me deleita, que me fere
E incendeia. Ah! Poder evadir-me!
Poder respirar sem a culpa e a dor
Percorrendo o meu corpo.
Há capítulos arrancados no meio do livro
Que a tanto custo tento guardar na mais recôndita prateleira.
Talvez um dia, quando o medo se afastar de mim,
Perturbe a outra personagem só para saber
O que, de facto, aconteceu naquela história.
Tenho plena consciência
De uma ilusão inconsciente
Que um dia já foi a mais pura das verdades.
Quisera eu ser Inverno e não dar flores nem frutos.
Daria, assim, sorrisos, dissimulados em momentos de loucura.
Tenho plena consciência que, afinal,
O relógio correu e corre demasiado depressa
E que a minha voz, quando sair da prisão,
Parará de gritar e de vociferar palavras doces,
Sentidas, cruéis, amargas.
Tenho plena consciência da linha do tempo.
Aprendi a distinguir passado e presente,
Apesar de continuamente os misturar,
Tendo de acreditar em noites que não voltam.
Tenho plena consciência que deixei o barco naufragar
E que me esqueci de me salvar.
De uma ilusão inconsciente
Que um dia já foi a mais pura das verdades.
Quisera eu ser Inverno e não dar flores nem frutos.
Daria, assim, sorrisos, dissimulados em momentos de loucura.
Tenho plena consciência que, afinal,
O relógio correu e corre demasiado depressa
E que a minha voz, quando sair da prisão,
Parará de gritar e de vociferar palavras doces,
Sentidas, cruéis, amargas.
Tenho plena consciência da linha do tempo.
Aprendi a distinguir passado e presente,
Apesar de continuamente os misturar,
Tendo de acreditar em noites que não voltam.
Tenho plena consciência que deixei o barco naufragar
E que me esqueci de me salvar.
Mais um dia cinzento e de raios de sol que espreitam pelo imenso céu furioso acima de todos nós. Olho-o, suplicante, sempre suplicante, como se procurasse um sentido, uma força que descobri que tenho e cuja fonte desconheço. Talvez seja eu. Ou talvez seja aquilo que tento fingir que sou, sinto, vivi. Um dia, não sei quando, a máscara cairá e, sendo ela do mais frágil vidro, partir-se-á no contacto com a terra quente, pulsante.
Dissimulada, sempre dissimulada, consigo encarar aquilo a que um dia chamei de fantasia, de utopia até. Todavia, um dia descobri que até o mais absurdo dos sonhos se pode tornar realidade. Permite-me o coração sangrento acrescentar que, na linha da vida, o caminho tem uma encruzilhada poderosa, voraz, inconsequente.
Um dia (hoje, ontem, amanhã...) perguntaram-me por que me ardiam os olhos. Emudeci. O coração, constantemente alerta, ainda não me deixa dar resposta às perguntas que me fazem. Eu não posso falar. O segredo está aos olhos de todos. Constato que todos nós estamos demasiado ensonados para prestar atenção aos outros, aos pequenos sinais que nos deixam, às reacções que não são deles, mas que apenas estão condicionadas por determinada situação. Mas, para meu gáudio e alívio, o sono de que padece a Humanidade deixa-me a salvo.
Mentiria se dissesse que quero ficar; mentiria se dissesse que quero ir. As cordas, as correias de ferro ardente prendem-me os pulsos. Hoje só posso viver de metáforas para disfarçar mentiras que, espontaneamente (sendo sincera, por precaução, necessidade e hábito), se formam na minha mente. Suplicando por clemência, bradando aos Céus para que o castigo acabe, uma lágrima cai quando a noite chega, partimos depois de um fugaz encontro num desses tão comuns corredores de desejo e, silenciosamente, tento convencer o néscio coração de que ainda existe uma fogueira, um incêndio, uma flor cujo néctar percorreu cada linha do seu corpo viril, protector, sabendo que, quando a realidade me possuir, ficarei no chão, esvaindo-me em sangue e sofrendo ainda mais.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
O sol, ensonado, esboça o último sorriso do dia.
Hoje, quando amanheceu, um cinzento ardente
Pintava o céu e eu, estranhamente feliz, fingia.
Mais uma vez o relógio me atraiçoou.
E a dor, lancinante, devagarinho percorreu o meu corpo.
Olhei-o. Nos olhos. Tentei pensar.
Mas o coração hoje magoou-me.
Sinto repulsa pela carne que desejo.
Mordi o lábio e um fio de sangue
Misturou-se no meu corpo.
Olhou-me, ávido de mim.
As mãos, trémulas, não passam a fronteira
Da luxúria, da volúpia, da pureza dos nossos corpos nus,
Abraçados, parados no Tempo que silenciosamente jurámos vencer.
Olhei-o, dissimulada, procurando na gaveta dos sorrisos.
Mas os meus olhos não conseguem mentir.
Hoje, quando amanheceu, um cinzento ardente
Pintava o céu e eu, estranhamente feliz, fingia.
Mais uma vez o relógio me atraiçoou.
E a dor, lancinante, devagarinho percorreu o meu corpo.
Olhei-o. Nos olhos. Tentei pensar.
Mas o coração hoje magoou-me.
Sinto repulsa pela carne que desejo.
Mordi o lábio e um fio de sangue
Misturou-se no meu corpo.
Olhou-me, ávido de mim.
As mãos, trémulas, não passam a fronteira
Da luxúria, da volúpia, da pureza dos nossos corpos nus,
Abraçados, parados no Tempo que silenciosamente jurámos vencer.
Olhei-o, dissimulada, procurando na gaveta dos sorrisos.
Mas os meus olhos não conseguem mentir.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Hoje, sozinho na minha casa de paredes brancas e silêncio, penso. Penso muito e não consigo dormir. A imagem dela baila na minha memória... Cabelos e olhos negros, brilhando por me ver, naqueles corredores de desejo onde outrora nos cruzávamos. As mãos que eu beijava com ternura, a pele morena que amei inconsequentemente sem pensar que depois a deixaria partir sem sequer a demover. Fui cobarde. Menti e magoei-a. Quando nos víamos notava-lhe o olhar gélido, sentido, ardente. Sentia a sua dor como se da minha se tratasse. Também eu a desprezava, murmurando para mim mesmo que daquela forma não a magoaria nem a faria sofrer mais.
Mas hoje, velho e só, recebi uma carta dela. Perdi-lhe o rasto. Naquela sala jurou nunca mais ver-me, querer-me (como ela me queria...) e desapareceu... até hoje. E só hoje me apercebi do sofrimento daquela mulher que amei, que possuí com volúpia e desejo, que seduzi diariamente, com quem troquei beijos alados em corredores de quimeras, que olhei cumplicemente gozando da ignorância dos outros. E ela diz-me que me amou e que me ama e que jamais imaginarei o quanto a fiz chorar por dissimular um desejo que tive e que ainda tenho, as noites sem sono, olhando o céu negro e pesado, pensando em mim e perguntando-se se eu teria feito isto ou aquilo...
E eu, que amo ainda esta mulher minha, hoje estou sozinho e entregue às memórias e pensamentos que reprimi durante anos. Mesmo convivendo com ela, evitei tocá-la, senti-la perto de mim; fugi do seu olhar, fiquei sem palavras, fingi desejar outras... Tudo em vão. Um dia, numa escada discreta, olhei-a com paixão, desnudei o seu ser, recordei os detalhes do seu corpo, mordi o lábio, dei um passo em frente, olhei-a nos olhos e sorri. Ah! O seu olhar negro e radioso observando todos os meus movimentos, perturbando-me. E, de repente, parei. O olhar tornou-se gélido. Recuei. E mais uma vez perdi aquele que reconheço como meu. Ela partiu, chorando magoadamente. O seu corpo à minha mercê, a boca rosada a suplicar-me o beijo da reconciliação. E eu, cobarde, afastei-me e abandonei-a no vão de uma escada. Nem sequer olhei para trás.
Hoje todas estas memórias me destroem. A mulher que desprezei é a mulher que quero, que relembro ao olhar para a porta de minha casa, para as paredes, para a cama solitária em que durmo. O perfume dela permanece, o resto perdeu-se no Tempo implacável.
Quando me quis levantar e correr atrás dela, as pernas falharam-me; quando quis beijá-la docemente, dos meus lábios escorria fel; quando quis olhá-la tive vergonha. Quando me dei conta do erro, já os ponteiros do relógio haviam avançado e descobri um caminho sem retorno.
Sou escravo do silêncio, das memórias, da pele que beijei sofregamente. Sou escravo do meu destino.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Agora que veio a noite
E que recordo sem cessar,
Uma profunda vontade de dormir me invade.
Não posso acordar amanhã, amanhã não!
Depois de amanhã já será melhor!
Senti-me esvair em sangue,
Em dor; uma dor imensa que não acalma
E que só queima.
Uma fogueira viva, intensa!
Ai! Pobre de mim, suplicante, lutando contra o Tempo
E acalentando -ainda- que a chuva e o Inverno voltem
Para que possa voltar a ser, pelo menos, contente.
E que recordo sem cessar,
Uma profunda vontade de dormir me invade.
Não posso acordar amanhã, amanhã não!
Depois de amanhã já será melhor!
Senti-me esvair em sangue,
Em dor; uma dor imensa que não acalma
E que só queima.
Uma fogueira viva, intensa!
Ai! Pobre de mim, suplicante, lutando contra o Tempo
E acalentando -ainda- que a chuva e o Inverno voltem
Para que possa voltar a ser, pelo menos, contente.
terça-feira, 15 de abril de 2008
A lágrima quer cair, mas eu não deixo.
Hoje venci! (Mas só hoje.)
Quero fugir daqui já.
O mar está à minha espera
Para me gelar neste tempo incerto,
Neste sol semi-escondido de mim, de nós.
É cedo ainda. Mal adormeceu a lua.
O céu está azul, mas feio
Só porque quero sair daqui já!
Já!! Não me ouviram?
Não me condenem! Não quero fingir mais
Porque não posso mais querer!
Saiam daqui, criaturas reles!
Ocas, hipócritas, horripilantes!
Malvada espécie!
(As horas não passam...
Tirem-me daqui os relógios!)
Hoje venci! (Mas só hoje.)
Quero fugir daqui já.
O mar está à minha espera
Para me gelar neste tempo incerto,
Neste sol semi-escondido de mim, de nós.
É cedo ainda. Mal adormeceu a lua.
O céu está azul, mas feio
Só porque quero sair daqui já!
Já!! Não me ouviram?
Não me condenem! Não quero fingir mais
Porque não posso mais querer!
Saiam daqui, criaturas reles!
Ocas, hipócritas, horripilantes!
Malvada espécie!
(As horas não passam...
Tirem-me daqui os relógios!)
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Entregue a mim, na imensidão da sala branca vazia
Penso e rejeito lembranças.
Não quero falar, não me quero mover.
Nem sequer quero olhar.
Só assim não sei fingir.
Entregue aos pensamentos, no meio de uma multidão oca,
Recordo e avivo achas de fogueiras que já se deveriam ter extinguido.
De tanta luz, tanta cor, ficaram as labaredas magoadas, enraivecidas,
Que querem devorar tudo ao seu redor.
E se hoje me entrego a mim, na imensidão das horas paradas,
É porque um dia à luxúria me entreguei. Ócio de meros momentos
Lá atrás, no passado, hoje é fel e amargura.
Está um sol primaveril, uma manhã fria, plácida,
Diria até bonita e delicada.
Eu, da minha janela, carpo mágoas perdidas
Que é Outono e o calor deixou-me, subitamente.
O Inverno aproxima-se a passos largos.
É já amanhã, é agora.
Penso e rejeito lembranças.
Não quero falar, não me quero mover.
Nem sequer quero olhar.
Só assim não sei fingir.
Entregue aos pensamentos, no meio de uma multidão oca,
Recordo e avivo achas de fogueiras que já se deveriam ter extinguido.
De tanta luz, tanta cor, ficaram as labaredas magoadas, enraivecidas,
Que querem devorar tudo ao seu redor.
E se hoje me entrego a mim, na imensidão das horas paradas,
É porque um dia à luxúria me entreguei. Ócio de meros momentos
Lá atrás, no passado, hoje é fel e amargura.
Está um sol primaveril, uma manhã fria, plácida,
Diria até bonita e delicada.
Eu, da minha janela, carpo mágoas perdidas
Que é Outono e o calor deixou-me, subitamente.
O Inverno aproxima-se a passos largos.
É já amanhã, é agora.
Hoje nem sequer precisei de palavras.
Só quis fechar os olhos, fugir.
Só precisei de desviar o olhar,
Só me senti presa.
E o tempo nem sequer se compadeceu.
E eu, sangrando sofridamente, plácida,
Fervendo de raiva.
Hoje não quis as palavras de que tanto gostamos.
E nem quererei. Não ouso mais querer.
Dói tão profundamente o coração meio morto!
Só quis fechar os olhos, fugir.
Só precisei de desviar o olhar,
Só me senti presa.
E o tempo nem sequer se compadeceu.
E eu, sangrando sofridamente, plácida,
Fervendo de raiva.
Hoje não quis as palavras de que tanto gostamos.
E nem quererei. Não ouso mais querer.
Dói tão profundamente o coração meio morto!
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Chuva
Chove torrencialmente lá fora. Toda aquela água divina expressa a revolta que está calada, contida dentro de mim. Toda ela grita através das nuvens cinzentas que pintam o céu e que não deixam ver mais nada.
Chove a cântaros; ouve-se o som da bofetada a bater na vidraça, não se ouve o meu lamento. Apetece-me ir lá para fora contar gotas de chuva. Assim não recordaria nem sentiria. Só eu e a chuva, a chuva revoltada que certamente também bate na janela do quarto dele, aquela que ele insiste em fechar. Apetece-me ir lá para fora sem guarda-chuva, sem protecção. Só eu, a chuva e a nossa revolta. Ela grita com Deus, com o Mundo, com as nuvens, com o sol; eu gritar-lhe-ia aos ouvidos até o deixar surdo, vociferaria, os meus olhos faiscariam até o queimar e fazer sofrer de dor. Mas no dia seguinte continuaria (e continuará) a chover, simplesmente porque não se pode fugir da ironia do Destino.
Encho-me de coragem agora; amanhã terei de a procurar. Durante a noite, de mansinho, enquanto eu sonho, ela foge da minha mente, já não é minha; brinca com o meu coração todas as noites e deixa-o apertado de tanto sofrer.
Lembro-me que um dia andámos à chuva. Os dois, sem ninguém saber. E também que, de repente, se fez sol e tudo se perdeu. Secou, mudou, desvaneceu-se. Julgando eu que o Tempo me traria a Primavera, deixou-me permanentemente um sol de Outono fraquinho; não aquece. Agora só me apetece dormir e andar à chuva. Só assim posso gritar e escapar de um Destino que sei que não posso aguentar. Agora não. Tenho o coração enfraquecido e a mente exausta de tanta guerra, destruição.
Subitamente apercebo-me dos vultos que me cercam. Sombras que se movem ao meu redor silenciosamente, perturbam-me. Só a sua simples presença me enfraquece. Tantas, tantas! Todas murmuram palavras soltas que reconheço. Também um dia as proferi. São fantasmas, são lembranças! Não quero mais! Não quero! Se algum dia sobreviver ao Tempo, o meu último grito será de alívio, de despedida.
É Outono em mim. Na luz dourada do crepúsculo, com o vento frio a cortar-me a pele, vou até ao mar.
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