quarta-feira, 14 de abril de 2010
Orfeu é Eurídice
sem tempo nem lugar
nem dia nem noite
num lugar só dia
num dia só noite
A lua cheia perfeita redonda
grávida de amores
A rua de paralelos está deserta
Ainda, suspiro eu
A varanda tem vasos de margaridas
e a minha alma partiu-se
Até ele chegar do supermercado
e trouxer um regador
Quebrada sinto-lhe os passos na cozinha
a torneira a verter vida e a música
a embalar-lhe os gestos
E revive a alma morta
e o precipício é o limite de veludo
onde o corpo repousa
nos raios de sol parcos
que deixam o dia.
É noite já.
Todos os lugares comuns me falam
com a tua voz.
O tempo sacode-me as entranhas
revolvidas pelo ciúme,
envenenadas de ti.
O cais sonha docemente.
O cais e as águas do rio que correm
serenas. A janela da tua casa
e a sombra por trás da cortina.
O tempo esventra-me a alma
quando acordo assustada a meio da noite
desejando uns braços quentes
que me agarrem o corpo no que resta da escuridão.
O cais - devagar acorda. Já é dia
e a navalha cortou o tempo.
Pedaço a pedaço o corpo cai.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Apeteces-me agora
na confusão da vida e da cidade,
na confusão do meu coração indeciso
que não sabe se se desprende para ti
ou se se esconde em mim.
Vais-me apetecer logo
quando olhar em volta
e não te sentir
no quarto,
na cama,
na pele;
quando não me disseres
boa noite
e não sentir a tua
voz
a falhar.
Apeteces-me mais do que me lembro querer-te ontem.
Dorme comigo esta noite
quando os meus lábios se cerrarem e palavras de mel
não se cravarem na tua
pele.
Envenena-me...
pediste-me há muito tempo atrás
quando eras apenas mais um dia mesclado de cinzento.
Envenena-me...
peço-te eu secretamente todas as manhãs
quando o sol entra pela fresta da janela que eu me esqueci de fechar
e reparo que a cama está vazia,
que o meu corpo não descansou entrelaçado no teu;
que a tua boca ávida não me vai dar um beijo rápido e rotineiro
e o teu riso fazer-me rir.
Envenena-me, deixa-me pulsante de ti;
envenena-me quando a noite cair
e na madrugada soar a tua voz no meu ouvido.
Envenena-me quando eu estiver enlaçada em ti
mesmo que esteja tudo em silêncio
e que só se oiça a nossa respiração
compassada.
Dorme comigo esta noite.
segunda-feira, 1 de março de 2010
A mulher do gesto inquieto
O peito que sobe e desce
À medida que o ar entra e sai
Corroendo-lhe os pulmões.
A mão pousada em cima do joelho
sereno e impassível.
Os olhos que abrem e fecham
sempre ao mesmo ritmo.
O olhar raivoso de mulher enciumada,
os músculos tensos que a roupa esconde,
a tez pálida,
o estômago que arde.
A mão que se une à outra,
os dedos contorcidos
e os pensamentos cindidos
a rebolar pelas veias
e a pulsar o sangue.
Dentro do mar há um tornado.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
pouso mal o pé e tropeço na minha vida.
Tropeço e não caio.
Só a pontapeio.Só a firo.
Deixei a minha vida à beira da morte.
Não numa cama de hospital,
mas na minha própria cama
entranhada nos lençóis que me cobrem
e ouvem sussurros de sonhos.
Dias em que, ao subir a rua,
o chão foge e a alma escorrega,
ágil,
feroz,
enraivecida,
sofrida.
Dias em que, ao retalhar o sono,
a minha vida é uma insónia constante.
Os olhos inchados de cansaço,
o corpo com fome,
a alma inerte.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Arrastado pelo vento do silêncio?
E se a tinta da tua caneta não deslizasse
no papel amassado e amachucado?
E se o teu sangue envenenasse as tuas veias
E a tua respiração fosse cortada no meio de uma sílaba esquecida?
E se o meu corpo se arrepiasse de cada vez
que imaginas tocar-me?
E se a tua voz se misturasse na minha voz
melodiosamente sincronizadas, brutas, vadias?
E se o teu corpo esventrasse o meu?
E se o meu corpo retalhasse a tua alma
E fizesse dela uma manta esfarrapada para se cobrir?
E se, na noite emudecida,
soasse o grito do nosso corpo-sangue
na memória da vida que restou?
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
entre e cidade e eu.
Chove torrencialmente lá fora.
A rua está deserta, invadida pela escuridão
E pelo medo.
Abri a janela para respirar.
A minha alma retorce-me as entranhas
Ao mesmo tempo que o vento espanca
as árvores ainda despidas.
Ao fundo uma pessoa conhecida
Que desafia a Natureza.
A janela aberta sorri.
O meu vulto tenta falar.
As palavras não passam na garganta.
Puxo pela voz.
Falha.
O coração esvai-se em sangue.
E o homem,do outro lado da rua,
espera por uma reacção minha.
Fala o meu corpo.
Insaciável.
Adúltero.
A pele arrepiada.
Ele pronuncia o meu nome.
O temporal abafa-o.
E a voz dele troveja, ecoa
na noite tempestuosa
que se abateu sobre mim.
Sem pensar, arranco a cortina
que lentamente definha no chão do meu quarto.
Perde a cor, grita de dor
Quando a piso
antes de sair
e abraçar uma nova vida.
A comê-las sofregamente
E travar o vómito e a agonia
Que sai dos meus dedos.
Ter-te nas veias, no sangue,
encher-me de comprimidos
para te matar dentro de mim.
Não gosto que te instales na minha vida
E faças dos meus dias um castelo de areia
Ameaçado pela vaga gélida do mar
que consome o Inverno na cidade.
E que me ofereças colares de conchas,
me afastes o cabelo e me sussurres ao ouvido
(porque os meus olhos vão fechar e eu vou saborear
o calor da tua respiração em mim)
palavras inebriantes enquanto dás um nó no fio.
E me faças mil e uma promessas
de noites passadas à lareira,
a garrafa de vinho meio cheia
e depois um coração vazio.
E eu, do outro lado da cama, estupidamente vestida,
Olho-te sem te ver.
Estás desesperado para sentir a nicotina correr
nas tuas veias e livrar o teu sabor
do beijo selvagem que pousei nos teus lábios.
Queres respirar-me através de umá máscara de oxigénio
Desligada da botija.
Os teus olhos ansiosos espreitam indecentemente as minhas pernas
que dizes serem longas e macias
e controlas o desejo de te aproximares de mim
Sem temer a violência do meu sangue.
E o terror que mortificou a minha carne
afaga o ar que eu e tu respirámos,
o mesmo ar misturado e retalhado
e novamente inalado
por dois pulmões
que desesperam por
um
cigarro
ou um fumo qualquer
que os esbata na luz do
dia.
ao acaso
e não tenho vontade de preenchê-lo
mas quero escrevinhá-lo.
E escrever coisas, quaisquer coisas
mesmo que não façam sentido
porque hoje que a música do violino
me embala a tarde
tudo o que ouvir será
o mais perfeito.
Olho para as minhas mãos:
o verniz vermelho-escarlate lasca
como a minha alma
a caminhar para o abismo de papel
que os meus dedos ingenuamente rasgaram
porque o tempo se arrasta a passos largos...
Suspiro.
Sinto o ar que expiro
E a música que sobre de
tom
e me desperta
e arranca o bico de carvão do papel
que tem linhas direitas
onde tudo o que escrevo está
indubitavelmente
torto.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Não me perguntem o quê
Porque não sei.
Já não sei não saber,
Não sei não querer saber
E não sei como divagar em mim.
Planeei viagens ao mínimo detalhe,
Criei uma desconcertante aventureira
De botas enlameadas e determinação encerrada no olhar.
Quando senti, o sol queimou-me de tão abrasador,
De tão macio, de tão próximo da realidade,
De tão diferente de mim.
Tiraram-me a venda invisível e eu simplesmente não sei.
E agora sou eu que me interrogo horas a fio
Enquanto o relógio avança, lânguido, pelo tempo,
Quem deixei pelo caminho enquanto trepava às arvores
E olhava a terra cá em baixo tão genuína desejando poder atirar-me e
Sentir.
Não, não sei.
E toda esta minha ignorância me leva a mim,
Numa incerteza de passos e passadas,
De atropelos e quedas em escadarias de sonhos.
Não saber divagar e perder-me em mim é pura e ingenuamente
Saber-me.
Se o que quero é riscar palavras.
Estão todas concentradas algures no meu corpo,
Escorregaram-me dos dedos inseguros para parte incerta.
Se calhar tenho as palavras nos pés
E estou de cabeça pra baixo
Ou então estou cansada para me mexer
E estou deitada em cima de folhas de cadernos
Rabiscados e escritos,
Palavras que correm e atropelam linhas ou quadrículas.
Ah! É isso! Vou passar a escrever em cadernos quadriculados.
Finjo-me de amiga da Matemática e ponho ordem no ser
E aprendo a resolver problemas.
(Será por pouco tempo porque, afinal,
Sou ordenadamente desordenada
E vivo na minha bagunça arrumadinha
Como livros gastos nas estantes
Ou na caixa de cartão no chão do quarto
Porque me cansei de prender prateleiras à parede,
Vê-las desabar, desvirginar tinta branca
E rachar madeira quando a noite cai.)
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Depois de uma batalha desigual
Em que o vencedor saiu vencido,
Pude finalmente encontrar um tempo de tréguas.
Como se a euforia das manhãs e a esperança de uma nova vida
Me trouxessem alento e rasgassem os cortinados
Para deixar entrar o sol no quarto
E acariciar a minha pele.
Por que voltou a rondar os meus sonhos
Que acordam em pranto,
A pregar-se ao tecto do meu quarto durante o dia
E a passear-se por ele durante a noite
Não me deixando dormir?
Só a fraqueza do corpo me sossega.
O resto continua em carne viva
E a sangrar mais do que queria,
A viver no lugar errado,
A existir porque sim.
por as ter trancado dentro de mim
não sei se no coração ou no cérebro
se nas mãos ou nos dedos
mas não as descubro
e perdi-me num labirinto cheio de luz
que descobri ser eu
num instante em que por acaso
me perguntei o que buscava
e quantas sebes havia arrancado
por que me tinha arranhado toda
por que tinha o cabelo desgranhado
e lágrimas insensíveis a saltar-me dos olhos
como se fosse uma menina perdida
no meio da floresta
só ouvi murmúrios surdos
ecos inaudíveis
vi palavras cegas
com os olhos vendados
e a alma incapaz de escrever
ou apenas de juntar sílabas
as mãos presas gesticulando
e na boca um sabor a agonia
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Tendo corpo
E tendo o coração a sangrar o dia todo,
A noite toda. Gotas de sangue a cair no chão,
A enfraquecer a carne e o gesto.
Olhos que se apagam como candeeiros cuja lâmpada fundiu;
Como trovões que caem em árvores e provocam incêndios;
Como fumar um cigarro e não sentir a nicotina
A invadir o corpo.
Escrever com uma caneta sem tinta
E ter palavras invisíveis perdidas nas linhas do papel.
Doeu chorar sem calma, limpar as lágrimas à manga da camisola,
Olhar um espelho e não ter reflexo. Naufragar num beijo.
Perder a terra. Ser um galeão saqueado por piratas.
Doeu como a arma que se dispara e cuja bala fere o corpo
Deixando cicatriz. Doeu pisar as pedras da calçada com sapatos
Mas descalça, não sentir vidros e cortar-me, torcer o pé ao andar de salto
Porque a angústia me fez correr em terreno incerto.
Doeu ver uma palavra desferir o golpe mortal
Na minha alma e não ter direito a um segundo de misericórdia.
Só sangue e…vazio.
terça-feira, 14 de abril de 2009
o coração enfraquecido meu estacou no tempo no meio da sala
quando as palavras se afogaram em gritos
de gaivota num dia ao fim da manhã.
nao esperava o toque
a mão que se desprende do corpo
e avança para a tua pele e te acaricia suavemente.
adeus meu amor
a vida retalhada num globo de areia que chocalha
e os grãos que caem na dispersão do que houve
e não o negas porque o sorriso que o teu pensamento
obriga os teus lábios a esboçar
esconde o sonho do que poderia ter sido
se ásperas palavras o teu coração infame
não tivesse desprendido.
o relógio está envolvido em seda pura
como a minha pele que tocaste
e rendido no fundo da caixa.
O preto da caneta no papel. O assunto da agenda.
A paixão arrancada do coração.
Dói-me a cabeça. Estou ausente de mim.
Perdi-me cá dentro quando virei o mapa
Ao contrário.
Tenho andado em círculos,
A correr
Desesperada,
A passar noites
Em claro
E dias na
Escuridão.
A escrever,
A pensar,
A saborar café atrás de café,
Cigarro atrás de cigarro
Porque quero um vício.
De tanto disfarce nem a nicotina absorve a minha alma.
Na loucura dos meus dias risco cadernos
E enveneno o desejo que arrepia a minha
Pele.
Sacio o corpo em noites ao relento,
Madrugadas de luar e de trovões.
Tenho pressa para chegar ao fim da página,
Ao fim da garrada de néctar que acompanha a minha
Solidão
(Solidão...solidão...)
A voz parou na garganta,
Ausente a essência da palavra,
O sentido nu e cru perdido nos
Lábios
Quedos.
Não me faz falta ouvir a tua voz.
(Tu não queres ouvir a minha.)
Os dias correm como sempre correram.
(Os meus não.)
A chave continua a abrir a porta apesar de gasta.
(Perdeste a tua chave.)
Eu entro em casa, atiro-a para cima da mesa;
abandono a mala que me pesa o dia todo no ombro esquerdo.
(Só a uso no ombro esquerdo.)
Descalço os sapatos, o casaco já incomoda.
(E tira-se, dizias tu com olhar malandro.)
Chego ao sofá e sento-me.
(Sozinha.)
Sinto a porta a bater e penso que decidiste voltar.
(Eu joguei a tua chave pelo vidro do carro.)
Nada. É o que nos resta.
O branco, o verde e o cinzento.
O mar e o azul profundo.
A areia límpida da cor da minha alma.
O amarelo-fogo do sol.
Sem nome, quem sou?
Apenas eu fundida em ti;
Olhares furtivos pela pequena janela.
Os caçadores vorazes do lado de fora,
Os olhos que espreitam, palavras que se ouvem
Quando os amantes sussurram.
Tu e eu não somos nós.
domingo, 22 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
Nem com formas
Nem com palavras
Nem com imagens
Nem com símbolos
Nem com gestos
Só com olhares
E histórias dentro de olhares
E noites vincadas em dias
E sóis de Inverno que trazem constipações
E narizes ranhosos e tosse
E que prendem a voz na garganta
E que fazem pigarrear antes de falar.
Bola. Vermelho. Azul.
Menina. Sol. Lágrima.
Comi um coração de papel.
Não tem de ter sentido,
Só precisa de estar cheio.
Mas lá. Era eu no meio do nevoeiro, as luzes cansadas
Dos carros que querem ir para casa.
Apeteceu-me engolir a cidade.
Já não sentia o chão nem o meu próprio corpo.
Pensei na morte, na escolha. Se eu quisesse, num segundo misterioso,
Atravessaria a rua sem olhar para os carros que seguiam a alta velocidade.
Tinha perdido o meu corpo, tê-lo-ia deixado ausente de mim,
Ausente de cheiros, de cidades, de pessoas que se cruzam comigo todos os dias
Em dias diferentes quando atravesso a rotunda.
O pensamento estava ausente do meu corpo, a voz ausente da garganta,
O grito ausente da voz.
A lágrima presente no olho.
domingo, 8 de março de 2009
Essa coisa, a paixão
Não há retratos para arrancar da parede,
Não há cartas para queimar,
Não há objectos para atirar para o chão.
Há olhares clandestinos que se devem extinguir.
Há beijos para guardar em caixas velhas e empoeiradas,
Palavras que agora se confundem numa caixa de música
E que não são gritadas porque já não há corda.
Há uma tatuagem para arrancar.
A sangue-frio.
Há um coração para matar
Com uma faca afiada
Ou um punhal enferrujado.
Nem era pelo salto alto que ficava preso nos paralelos;
Não era pelo sol abrasador que me queimava a pele,
Não era pelo ventinho que me despenteava.
As pedras olhavam-se, sentindo pena dos meus passos errantes,
Chorando comigo por um caminho que jamais voltarei a fazer.
Eram poucos metros de rua. Suficientemente perto para chegar ao carro,
Suficientemente longe de mim.
Senti o sabor da terra molhada, fiquei com as mãos brilhantes quando caí.
E por acaso estava lá um homem. Compus-me. Os óculos de sol ainda escondem os meus olhos.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Sentir o veneno entranhar-se no meu sabor
E apagar a luz.
Ficar em silêncio na escuridão da tua ausência.
Apetece-me fechar os olhos e sorver o teu beijo,
Morder o teu coração, sugar todo o desejo.
Morder-te os lábios e fazer-te sangrar,
Prender-te na minha boca enquanto a luz está apagada
E os olhos que nos rodeiam fechados.
Envenenar-te de mim, extrair paixão com dentinhos afiados
E deixar as marcas cravadas na tua carne.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O álcool que me corre nas veias e que não tem efeito absolutamente nenhum, a garrafa vazia, a sala vazia, a mão vazia... A mão? Onde está o coração? Atiro a garrafa para o chão violentamente, os cacos espalham-se, um deles, pequeno e quase imperceptível, rasga a minha carne. E, ganhando vida, entra em mim procurando raptar o coração fugitivo.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Roída, esventrada, sem essência.
Preciso que as palavras me saiam do coração
E não da boca, não da razão, não de noites perdidas a pensar.
Faz-me falta a palavra dolorida para combater a que me atingiu no coração.
Duas mãos para estancar o sangue que corre e corre....
Preciso de outra voz que não esteja gasta,
De um rosto novo, de um olhar diferente.
Quero chuva, sol, arco-íris. Tanto me faz.
As horas são todas iguais em diferentes relógios,
A noite continua a ser uma candeia apagada, morta.
Faz-me falta ser quem fui, quem não quis ser sendo.
Quero uma palavra qualquer para a minha raiva a transformar em cruel,
Para o meu coração destilar todo o veneno que o preenche.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Quis ir buscar um papel vazio
Desejando atirar as minhas palavras ao acaso.
Quis pegar num caderno e arrancar todas as folhas,
Rasgá-las uma, duas, três vezes.
Quis pegar num livro e arrancar-lhe as histórias.
Já quis apenas querer.
Não tive coragem de destruir palavras nem de rasgar as folhas.
Hoje quero pegar numa pedra, atirá-la ao chão e parti-la em mil pedaços
Apenas com um gesto brusco.
Mas a minha mão já não tem forças,
Os meus olhos já não tem lágrimas para chorar a perda.
Fiquei à chuva com uma pedra entre as mãos.
Agarrei-a como nunca agarrei a minha vida.
E passaram-se horas, dias.
Vi o sol nascer e dormir todos os dias,
Vi a lua a sorrir e pontinhos brilhantes lá em cima.
Mas nada teve significado. Despertei apenas quando a pedra
Desapareceu das minhas mãos. Finalmente movi o meu corpo
E senti um pedregulho cinzento, ferido e frágil no lugar de coração.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Corpo
Por não dormir. Por ter saído da cama porque senti frio.
Porque afinal o meu corpo lutou contra a minha mente
Todo o dia. Só fez uma pausa quando adormeci no sofá,
Morta de dor.
Mas em breve despertei porque a sala estava quente
E eu cheia de frio. Não sei quantas camisolas e agasalhos tinha.
Só sei que passei o dia cheia de frio.
A noite está a começar agora e já começo a ter frio.
Posso ter tomado dez ou vinte cafés que o efeito é contrário.
Tudo por causa do meu corpo contraído e fraco que não se alimentou
Do meu coração. Porque ele parou como pára um relógio numa hora
E num segundo qualquer.
Só não anotei a hora por causa do tic-tac do relógio.
Não gosto deles. Uso-os apenas quando o tempo está parado
E não me incomodam com aquele barulho constante.
O meu corpo quer fraquejar agora, mas não deixo.
Foi espancado até eu perder os sentidos e perder a alma
Numa rua que conheço. Mas arrastei-o pela cidade.
E ficou bem.
Só não sei onde perdi o coração.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Reviver o passado
Se me afastei para não sofrer, se o atirei para um canto
E o esqueci como se esquece o Inverno das folhas que o Outono
Arrancou violentamente das árvores e as fez cair no chão desamparadas,
mortas de tudo ou de nada, se é que algum dia tiveram vida...
Se o guardei no fundo do peito bem fechado para que irrompesse
Sagaz, louco para me castigar...
Se o pus de lado pensando que ele jamais voltaria a acolher-me
Nos seus braços delicados e insidiosos.
Se afastei a volúpia de sentimentos...
Se os reneguei quando o corpo caiu no chão frio e duro
Amparando o meu grito e toda a dor que se escondeu
Na minha pele disfarçada de desejo,
Amparando o meu choro triste, os olhos tristes que apenas entreabrem
Sem se preocuparem em ver porque afinal está escuro e já não há dia.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O Amor é o Amor. Por ser Amor simplesmente dói.
Um dia pensei poder fugir do Amor.
Mas o Amor perseguiu-me sagazmente até me aprisionar
Num tempo qualquer num espaço qualquer.
Eu e o Amor escondidos por aí; amantes traiçoeiros.
Mas Eros descobriu o meu cativeiro e quando me possuiu violentamente
A minha vida acabou.
Só consigo distinguir sombras, mas não as reconheço.
Presa horas a fio, o pensamento foge, o corpo fraqueja, dorido, preso,
Em carne viva.
E há feridas que não cicatrizam e o calor aumenta a dor.
Oiço os meus gritos, mas não tenho voz. Não podem ser meus.
Lutei até não ter forças, até não poder falar, sentir.
Mas o poderoso Eros num rasgo de loucura apagou a fogueira
E restei eu. Em silêncio e esquecida entre aquelas paredes.
Durante todas as horas. E via reflexos de luz aqui e ali.
E, de repente, vislumbrei que não estava sozinha.
Havia alguém naquele quarto, naquela cave, naquele sítio
Que não sei onde é, naquela data que não reconheço.
Senti um homem perto de mim. Olhava-me sempre fingido
Esperando que o cansaço me derrubasse para me poder cravar
Um punhal repleto de pedras preciosas no peito sem me matar,
Ferindo-me, cortando-me vezes sem conta, tentando purificar-se
No meu sangue que gota a gota ia caindo no chão enquanto os meus olhos se fechavam
Lentamente.
E ele esperou que nem mais uma gota caísse e uma gargalhada ali ecoou.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Ver as águas do rio correr, preguiçosas.
Invejá-las por serem livres.
Ter versos e palavras, apenas palavras,
Dentro de mim e não a conseguir expulsar
Como quero. Sem ordem, sem regra,
Sem tempo.
Escrever uma aqui e outra ali.
Uma no chão e outra no céu;
Conseguir desenhar letras ao pé do mar
E não deixar que a onda sagaz e sedenta de areia
A tome para si e a aprisione dentro de mim.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Juntar sílabas ao acaso, apagar com a borracha,
Apertar o lápis por entre os dedos e desenhar letras.
Dizem que a minha caligrafia não é bonita.
É-me indiferente. Não quero cadernos repletos de palavras bem desenhadas.
Quero só palavras. Bonitas, feias, grandes, pequenas, de duas, três, quatro ou cinco sílabas.
E até de seis ou sete se puder ser.
Só quero palavras a brotar de dentro de mim.
Não quero sentidos nem ordem. Não quero regras nem imposições.
Quero trocar o sujeito, os complementos, o predicado!
Quero tudo e não quero nada.
Afinal só quero sentir dor na pele
Porque já não sei quem sou.
Morri um dia destes que passou.
Nem sequer derramei uma lágrima.
E voltei a encontrar-me numa rua errante qualquer
Só porque passei por acaso.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Girassol
Porque eu gosto. Porque me queriam ver com um sorriso.
Porque havia amor.
A época dos girassóis acabou. O que por mim sentiam está perdido.
O sorriso que queriam ver no meu rosto foi esquecido.
Restou o amor.
Solitário e errante, vagabundeia dentro do meu coração
À procura de um girassol.
Mas a época acabou.
Presa, mas dançando para abafar a tristeza dos seus olhos
E a dor do seu coração.
No vazio, desenha movimentos suavemente tensos.
Mas não está ninguem a ver, ninguém a escutar a melodia,
O doce canto da sua alma.
Está escuro e o sol não entra.
Vem um pequeno príncipe
E, a medo, diz que o sol morreu.
(Pobre bailarina! O Tempo pára e lentamente
Cai no chão sem um sinal de vida.)
Só se formam na minha cabeça desvanecendo-se em seguida.
Também elas me doem ao sair dos dedos.
Frustradas, ásperas.
Não conseguiram chegar ao coração.
Ficaram presas na garganta com o sentimento ferido,
Com o abandono e a dor de um adeus.
É como se tivesse o segredo mais bonito do mundo
E o tivesse perdido. Como se tivesse sido roubado
Ou esquecido.
E doem porque não querem gravar no papel
O fim e o desalento da solidão.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Como se não tivesse corpo
E tudo desaparecesse na imensidão do vazio
Sem horas, sem razões, sem lógica.
Não quero pensar, mas a mente bate-me num combate desigual
Que já sabia que iria perder.
Não sinto mesmo.
Tenho corpo, tenho dias e momentos
E nenhum deles tem um significado.
(Agora, pela noite dentro, vagueio por aí
À espera de presas às quais possa roubar sentidos.)
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Deitada no escuro, inerte.
O frio gela o meu corpo.
Já não sinto.
Até as palavras me abandonaram.
Falha-me a voz, rejeito o pensamento.
Estou só. Completamente só.
E nem sequer a Primavera
Que me deveria dar flores belas,
Ósculos ardentes e raios de sol encantado
Se compadece e me devolve a vida.
Estou só. Completamente...
Só.
Que querem? Sinto-me presa, enjaulada sem culpa.
Quase parece que não sinto, que não escuto...
Quase parece que nem a lágrima me queima
E o coração não arde!
Quase, quase...
Quase...
Não quero meio termo,
Não quero!
Já disse que não quero!
Não vou repetir!
Quase caí na tentação,
Quase amei, quase deitei tudo para o alto em nome de uma loucura...
Quase fugi...
(Eu jurei que não ia repetir!)
Agora fitando o indefinido
Olhando para formas geométricas que detesto
Sinto que quase errei...
É...
Quase!
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Confusão de Tempos
Sol quente, flores de várias cores que se perdem na densa floresta.
O Beija-flor alegra a manhã, as nuvens sorriem.
Está um pouco de frio.
Dentro da tranquilidade do meu jardim repouso.
O amor preenche-me. A meu lado adormece feliz.
O sorriso desenha-se no seu rosto.
Está um pouco de frio.
Subitamente o Inverno! Brusco, voraz, maravilhoso!
Não me são indiferentes o desejo e a pele que amei.
Jamais os pedaços de neve se misturarão em mim outra vez.
Está muito frio.
Gosto do Inverno.
domingo, 15 de junho de 2008
Não hoje porque não houve sol.
Apenas lágrimas e chuva.
Não aquela chuva deliciosa de há tempos.
Sem especificar, sem garantir. Ontem.
Lá atrás no passado.
Na memória, hoje. Bem presente.
A bailarina do meu quadro continua presa,
As cordas do violino desfizeram-se nas minhas mãos,
Enquanto os meus dedos as recordavam.
Basta! Não quero tocar, não quero ver, ouvir, saborear.
Não quero desvendar o mistério escondido em cada olhar.
Não quero pensar porque dói. Apenas.
Quero, afinal,
Esquecer.
(Na confusão dos meus pensamentos,
Avizinham-se novos Tempos...)
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Despedida
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A vida correrá depois de amanhã. Não sei quando é amanhã. Interessará o amanhã? O choro chegará apenas durante a noite fria que se avizinha. Depois de amanhã. Depois de fingir que a tristeza não faz parte de mim. Depois de dissimular e de frustrar o prazer que delicia o meu corpo e o dele a cada olhar intenso. Sem me tocar despe-me. Nua, à sua frente, beija-me, toma-me, bebe-me em silêncio. Na ignorância de todos. E finge de novo. Sorri, malicioso.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Prisioneira
terça-feira, 13 de maio de 2008
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Metáforas
E, mesmo assim, eu não consigo entender
O sofrimento que me invade sem pudor.
Sinto na pele as vergastadas dolorosas
Como se fosse uma escrava
De um destino que escolhi
Porque segui o prazer.
Estou presa numa fogueira que cresce diariamente,
Que me queima, que me deleita, que me fere
E incendeia. Ah! Poder evadir-me!
Poder respirar sem a culpa e a dor
Percorrendo o meu corpo.
Há capítulos arrancados no meio do livro
Que a tanto custo tento guardar na mais recôndita prateleira.
Talvez um dia, quando o medo se afastar de mim,
Perturbe a outra personagem só para saber
O que, de facto, aconteceu naquela história.
De uma ilusão inconsciente
Que um dia já foi a mais pura das verdades.
Quisera eu ser Inverno e não dar flores nem frutos.
Daria, assim, sorrisos, dissimulados em momentos de loucura.
Tenho plena consciência que, afinal,
O relógio correu e corre demasiado depressa
E que a minha voz, quando sair da prisão,
Parará de gritar e de vociferar palavras doces,
Sentidas, cruéis, amargas.
Tenho plena consciência da linha do tempo.
Aprendi a distinguir passado e presente,
Apesar de continuamente os misturar,
Tendo de acreditar em noites que não voltam.
Tenho plena consciência que deixei o barco naufragar
E que me esqueci de me salvar.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Hoje, quando amanheceu, um cinzento ardente
Pintava o céu e eu, estranhamente feliz, fingia.
Mais uma vez o relógio me atraiçoou.
E a dor, lancinante, devagarinho percorreu o meu corpo.
Olhei-o. Nos olhos. Tentei pensar.
Mas o coração hoje magoou-me.
Sinto repulsa pela carne que desejo.
Mordi o lábio e um fio de sangue
Misturou-se no meu corpo.
Olhou-me, ávido de mim.
As mãos, trémulas, não passam a fronteira
Da luxúria, da volúpia, da pureza dos nossos corpos nus,
Abraçados, parados no Tempo que silenciosamente jurámos vencer.
Olhei-o, dissimulada, procurando na gaveta dos sorrisos.
Mas os meus olhos não conseguem mentir.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
segunda-feira, 21 de abril de 2008
E que recordo sem cessar,
Uma profunda vontade de dormir me invade.
Não posso acordar amanhã, amanhã não!
Depois de amanhã já será melhor!
Senti-me esvair em sangue,
Em dor; uma dor imensa que não acalma
E que só queima.
Uma fogueira viva, intensa!
Ai! Pobre de mim, suplicante, lutando contra o Tempo
E acalentando -ainda- que a chuva e o Inverno voltem
Para que possa voltar a ser, pelo menos, contente.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Hoje venci! (Mas só hoje.)
Quero fugir daqui já.
O mar está à minha espera
Para me gelar neste tempo incerto,
Neste sol semi-escondido de mim, de nós.
É cedo ainda. Mal adormeceu a lua.
O céu está azul, mas feio
Só porque quero sair daqui já!
Já!! Não me ouviram?
Não me condenem! Não quero fingir mais
Porque não posso mais querer!
Saiam daqui, criaturas reles!
Ocas, hipócritas, horripilantes!
Malvada espécie!
(As horas não passam...
Tirem-me daqui os relógios!)
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Penso e rejeito lembranças.
Não quero falar, não me quero mover.
Nem sequer quero olhar.
Só assim não sei fingir.
Entregue aos pensamentos, no meio de uma multidão oca,
Recordo e avivo achas de fogueiras que já se deveriam ter extinguido.
De tanta luz, tanta cor, ficaram as labaredas magoadas, enraivecidas,
Que querem devorar tudo ao seu redor.
E se hoje me entrego a mim, na imensidão das horas paradas,
É porque um dia à luxúria me entreguei. Ócio de meros momentos
Lá atrás, no passado, hoje é fel e amargura.
Está um sol primaveril, uma manhã fria, plácida,
Diria até bonita e delicada.
Eu, da minha janela, carpo mágoas perdidas
Que é Outono e o calor deixou-me, subitamente.
O Inverno aproxima-se a passos largos.
É já amanhã, é agora.
Só quis fechar os olhos, fugir.
Só precisei de desviar o olhar,
Só me senti presa.
E o tempo nem sequer se compadeceu.
E eu, sangrando sofridamente, plácida,
Fervendo de raiva.
Hoje não quis as palavras de que tanto gostamos.
E nem quererei. Não ouso mais querer.
Dói tão profundamente o coração meio morto!
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Chuva
domingo, 30 de março de 2008
Que vagabundeiam pelas ruas mescladas de cinzento.
Na calçada um rasto de sangue, de vida e de memórias.
A noite que entretanto apareceu é agora o seu lar;
A lua o seu aconchego (quando espreita lá do céu);
Os passeios frios e sujos a sua cama.
Há ainda uns que têm um banco de jardim
E que dormem com todas as estrelas.
Há um que não dorme. Que escreve versos nas paredes.
Que se perde na imensidão da cidade, que ri da solidão
E que chora mal o sol nasce e o relembra do dia.
Porque a mão quer repousar.
Dói-me o corpo, a matéria é decadente.
Tenho sono e quero fechar os olhos.
A realidade supera-me, transcende-me, possui-me.
Não durmo porque penso.
Penso e peno. Não quero mais imaginar.
Abomino sofrimento por antecipação.
Mas sou Poeta. E o Poeta não pode abominar sentimentos
Nem perder versos porque tem sono.
Os versos estão no coração e na pele.
Tenho o corpo tatuado de emoções
Que disfarço com palavras.
terça-feira, 4 de março de 2008
E o relógio esboçar o sorriso
Das sete horas, o maestro
Cumprimentará o seu público.
Sorrindo, galante, para as mulheres;
Sorrido cumplicemente para os homens.
Sempre falso, fingido, impenetrável.
Eu estarei numa das cadeiras de veludo vermelho,
Semi-escondida, subtil e magoada.
O concerto começará e a minha dor
Acompanhará a música que ilumina a sala.
E a minha dor amparará o maestro de olhos profundos
E claros desejando ardentemente falar-lhe no final
E beijá-lo na face, jurando jamais ousar querê-lo.
Não sei.
As flores existem,
A vida passa.
E depois?
Um dia irei abraçar o infinito.
Não quero realidade agora.
Estou saciada.
Amanhã deixo-a acariciar-me o cabelo.
Hoje quero quimera e mentira.
Hoje quero ver as estrelas ocupar
O seu lugar no belo firmamento.
Um dia serei uma estrela
Ou serei um sol, ou um planeta,
Ou até uma galáxia qualquer.
Longínqua, a anos-luz daqui.
Deixo o que não me pertence
E o que é meu. Mas levo a minha alma dentro do caco que sou,
Aquele que se escondeu no canto da sala vazia.
(Dentro de um frasco guardei o vento do Sul. Alguém o abriu - cruel Mão!
Fugiu-me tocando-me a face ao de leve, beijando-me o corpo, escondendo-me de mim...)
Linhas azuis, espaços em branco.
Nem sigo a direcção da linha quando escrevo.
Vejo e sinto tudo turvo.
Fazem todo o sentido e para mim não fazem sentido nenhum.
Estão ocas, sem vida e sem música.
As cordas do violino rebentaram.
Do nada, um dia, naquele dia.
E naquele dia uerbum não é nada
E vida nada também é
Porque a melodia não faz paredes bailar
Nem o meu olhar transparecer o desconhecido que sinto em mim.
Inteira, intemporal. Não quero isto nem aquilo.
Querendo não quero tudo (nem o bastante para sorrir!).
Ai, meu pobre violino! Agora entrelaço as tuas cordas nos meus dedos
Esperando que também deles não se despeçam.
Conservo a forte caixa frágil que encontrei no Mundo.
Volto à realidade das coisas e as palavras não me escutam,
Nem me cantam nem me ferem.
Ah! Voltar a senti-las jorrando dentro de mim
Excessivamente calmas, pacificamente furiosas a ponto de me bater,
De me esquartejar, de me matar de cansaço e sofrimento.
Ignoro-as agora. Não as quero.
Já não descrevem o sol como eu quero,
Entristecem flores na Primavera
E apodrecem os frutos.
Para que quero palavras que não me obedecem?
Moderadamente absurdas, absurdamente moderadas.
Assim também não quero, não gosto.
Não quero palavras fragmentadas e sem essência.
Não gosto de fechar os olhos.
Mesmo que as veja sem as ver,
Olho para o nada e encontro-as inteiras em mim.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Não consegui chegar à prateleira
Mais soturna, mais escondida, mais inútil
E esconder o Livro.
Abro numa página ao acaso e leio o que não quero.
(É difícil colocar aquele livro na prateleira.)
Passo outra e outra e mais outra e outra ainda
E leio o que já senti.
Gritam-me, furiosas, as palavras.
Ganham vida e batem-me.
Acordo no dia seguinte como se tivesse levado uma surra.
(E levei.)
O dia nem sequer tem cor (ou se calhar sou eu que não vejo).
O dia tem mágoa e sinto-a inteira em mim.
Volto ao edifício de outrora e o maestro continua lá.
Impenetrável, cobarde, fingido.
Eu sei onde o encontrar, mas não quero.
Gosto de realidade, não preciso que ela me mate.
Dói-me tudo e estou exausta.
Cortei contra vontade as cordas do violino que não sei tocar.
Cortei. Rasguei. Destruí. E com as minhas próprias mãos desfiz a batuta do maestro.
Ele partiu e eu parti, mas estamos no mesmo lugar.
Agora é tarde. O tempo passa, a vida corre e as flores morrem,
A música permanece, mas eu comecei a destruir as pautas.
Matei os instrumentos. E estou prestes a cometer outro crime.
Matá-lo dentro de mim, apagar para sempre, mas não deitar no lixo.
Ódio! Ódio! Ah! Agora não te vás para que cumpra o prometido.
Sou a última acha da fogueira. Não me posso extinguir já.
Estou exausta. O mundo abraça-me como aquela tia que já não me vê há anos
E que quase me sufoca e me cobre de beijos.
(Vai-te embora, Maestro, mas para sempre. Não te quero reencontrar
Nem saber quem és. Já esqueci o teu nome. Já não quero os teus beijos e os teus olhares
Ardentes. Não me sussurres mais ao ouvido.)
Dói-me muito a cabeça. E o pescoço. Os meus músculos estão presos,
Os meus olhos aprisionados na minha tristeza.
Vou dormir (se conseguir...) com o barulho do meu pensamento
E da minha recordação para amanhã voltar a fingir e a sofrer, a chorar e a sofrer.
E o coração tão morto.
Morto vivendo ao sabor do vento
Que fustiga e magoa.
Dor como esta jamais conseguirá ser transposta
Para papel, para corpo.
E eu não esqueço.
Não posso, não me é permitido.
E fecho as cortinas para que não
Se vejam as lágrimas.
Tenho olheiras, olheiras profundas
De não dormir e de sentir e recordar.
Tenho um punhal cravado no peito,
Não páro de sangrar e arrasto-me por aí
Sem deixar cair uma gota de sangue.
Dissimulo, finjo, desprezo.
Estou presa por tempo determinado.
Preciso de me libertar das correias
Que dilaceram o meu corpo.
Dói tanto que quase sufoco,
Que quase grito
E sinto um cansaço tal que já nem
Dormir quero.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Progressiva, intensa e ferozmente.
Dói. Dói. Não pára de doer.
Não paro de recordar.
Dói ainda mais um sofrimento calado
E fingido.
Como dói olhar e não conseguir sequer
Encarar e disfarçar o ardente e recôndito
Sentimento.
Já não sei o que é dor.
A minha mão dói, o meu peito dói,
O meu frágil coração dói.
Tudo o que sou dói
Cada vez mais e não pára de doer
E magoar.
Não paro de sentir nem de abrir baús
De memórias vivas, marcas indeléveis
De felicidade.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Quimera
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Segredo
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Chegas mesmo a sentir?
Se escreves o que imaginas,
Que razão é a tua,
Que coração é o teu
Que é apenas vida?
Se finges o que sentes,
Onde está o coração
Que te fornece a sensação
E a arte?
Afinal, quem és tu e o que sentes,
Se é que sentes na confusão das sensações
Que só sentem aqueles que não conseguem sentir?
Lá vai ela apressada
No seu vestido aveludado.
Tudo o resto é nada.
E de manhã olha-se ao espelho
E nele sente a dor
De um dia que hoje é velho.
De um antigo desamor
Se queixa seu pobre coração,
Mas se de sentir precisa,
Seu sentimento pisa
E mais do que a perda é o não.
E porque hoje é... Sábado!
Quero correr descalça pela praia,
Cortar o pé na concha partida,
Acariciar a areia,
Perder o mar.
Também quero viver!
Quero um búzio encantado
E um Neptuno sábio
E uma estrela-do-mar
Cor-de-laranja e cheia de piquinhos.
Quero um peixe multicolor
E uma rocha cinzenta e feia,
Uma tempestade,
Um Adamastor,
A brisa marítima!
Quero subir às dunas,
Fazer castelos momentâneos,
Sentir o vento na face.
Eu só quero sentir.
Para que a chorar não voltassem.
Arranquei notas doloridas,
Angústias vespertinas.
De meu violino resta uma única corda
Que a ele se agarrou para nunca mais sair.
Resta a lágrima contida, o grito silenciado,
O maestro sem batuta, a orquestra sem melodia.
Quem sou eu se não um violino quebrado
Que chora noite adentro esperando
Pela mão que o irá consertar?
Nada é teu, pequena ave
Inundada de luz suave
Na Primavera que ainda resiste.
Quem és não o é.
O que vês são sombras confusas.
Isso que é teu não o é.
O que vês são lamentações difusas.
Quem és não sente.
A madrugada pura
Canta para tua alma demente
Perdida na noite escura.
Quem sou eu?
domingo, 28 de outubro de 2007
Vou riscar tudo. Não gosto deste texto. Não é perfeito. Tenho de sentir e criar a minha linguagem.
E num momento tudo se desfez. O meu império de ilusão caiu. O que sou eu sem ele? Carpirei as minhas mágoas. Abraçarei o que resta do meu reinado. Mas afinal quem sou eu? Uma rainha? Rainha de quê? De um condado frágil que se desmorona quando o vento sopra fortemente? Sou rainha de quem e de que gente? Onde estão os meus súbditos?
-Quem és tu, cavaleiro da madrugada?
As perguntas ecoam na minha mente, não há respostas, não há ninguém para responder. Estou só. O meu vestido alvo não emana luz suficiente para reerguer o meu castelo. Jazendo junto aos destroços, apenas me resta a memória e a dor. A perda, a ignorância e compaixão daqueles que passam sem nunca me ter conhecido, sem nunca me ter conhecido, sem nunca me ter olhado. Pedaços de sonhos e desilusão, vestígios da minha glória. Como se o dia fosse perfeito e a noite vil, o meu império se desfez. Porque tudo é efémero e as jóias não são poder. O tesouro real perdeu-se na tempestade do Tempo. Resto eu. "Ficou meu ser que houve, não o que há", diz-me Ele. Reencontro-o em mim, em cada uma das pessoas que vejo e que escuto enquanto as ruínas me dilaceram a alma.
Das ruínas construirei a minha pequena cabana. O ar da montanha agraciárá o meu dia. E continuarei aqui sozinha. Adormecerei na chaise-longue enquanto o sol se põe. E voltarei a ser rainha de mim mesma e guardiã do meu tesouro.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Sou um corpo e uma alma.
Mas, principalmente, sou uma alma espelhada num corpo.
Através dos olhos, do olhar.
As lágrimas caem enquanto a mão torturada escreve,
Enquanto sigo um rumo desconhecido e não encontro
Paz ou sequer um mero transeunte que me possa ensinar
O trilho certo.
Faço planos que não sei o que são, construo sonhos sempre.
E desisto. E quase apago o olhar.
E assim o tempo corre devagar, passando por mim, intemporal.
E assim sinto o peso dos segundos, o relógio imponente que rege o que sou.
Não sei para onde vou. Sou uma torre de marfim fechada, maravilhosa.
Quem me esculpiu perdeu o molde, perdeu a precisão no gesto.
E no meio da multidão grito por socorro silenciosamente.
Muitos me olham, fingem entender.
Sou um tudo que não é nada.
Sou um pedaço de alma perdido no vazio dos corações.
domingo, 9 de setembro de 2007
Avizinha-se longa e sem sono.
Quero adormecer sem sonhar,
Sem imaginar, sem sofrer.
A noite dos meus olhos não é mais que solidão,
Não é mais que desalento.
Quero dormir, dormir,
Mas o coração não deixa.
Ingénua! Inocentes olhos que acreditaram nos teus
E que procuram (ainda!) um sinal de mentira
Na verdade cruel da vida!
Pobre de mim que, sem sono, adormeço nas Trevas
Para nunca mais acordar.
E sorriste.
Estendeste-me os braços acolhedores,
Simulaste meiguice.
Colheste rosas para mim
E sorriste.
Abraçaste os meus medos
Como se dos teus se tratassem.
Colheste rosas para mim
E sorriste.
Entrelaçaste as minhas mãos nas tuas,
Contaste-me mil e um segredos.
Colheste rosas para mim
E sorriste.
Encantaste-me.
Prendeste-me.
No cesto das rosas escondeste uma serpente
E fugiste.
Colheste rosas para mim
E sorriste.
O silêncio quebrou os espelhos
E as recordações;
Aniquilou sentimentos, afastou abraços
E deixou-me só, entregue à desilusão.
Há apenas o meu trono: tecido aveludado
Vermelho-sangue desbotado.
As jóias da minha coroa foram roubadas
E vendidas numa ruela de Crueldade.
E estou só no meu palácio a saborear o travo amargo
Do silêncio, a sentir a queimadura provocada pela lágrima,
A imaginar sombras nas minhas paredes reais.